“Mais tarde, numa hora de calma, um novo e estranho pensamento fulminou-me o espírito como um raio e, subitamente, veio-me à mente outra explicação. Suponhamos que várias pessoas estejam falando de um homem desconhecido. Suponhamos ainda que fiquemos surpresos ao ouvir algumas dessas pessoas dizerem que tal homem é demasiadamente alto, enquanto outros afirmam ser ele muito baixo; uns censuram sua excessiva gordura, e outros criticam-nos pela sua magreza; uns julgam-no sombrio e circunspecto, ao passo que outros julgam-no extrovertido. Uma explicação possível, já cogitada: talvez esse homem tivesse uma compleição deveras estranha; há, porém, outra maneira de explicar o caso. Talvez ele não tivesse nada de estranho. Os homens excessivamente altos consideravam-no baixo; os homens muito baixos consideravam-no alto. Os velhos mercadores, que frequentemente engordam, achá-lo-iam magro, ao passo que os esbeltos achá-lo-iam tão gordo a ponto de ultrapassar os estreitos limites da elegância. Talvez os suecos o chamassem de moreno, enquanto os negros o julgariam loiro. Talvez, resumindo, o que era considerado extraordinário não passasse de uma coisa comum; pelo menos normal, o centro. Talvez, depois de tudo, o Cristianismo é que fosse o são, e os seus críticos, os loucos – de diversas maneiras. Tentei, então, investigar a exatidão dessa ideia, perguntando a mim mesmo se haveria, à volta de qualquer dos acusadores, algo de mórbido que pudesse justificar essa acusação. Fiquei espantado ao constatar que a chave ajustava-se perfeitamente à fechadura. Por exemplo, era de fato estranho que o mundo moderno acusasse o Cristianismo por ter austeridade com o corpo e, ao mesmo tempo, por ter refinamento artístico. Também era estranho, muito estranho mesmo, que o próprio mundo moderno procurasse conciliar a excessiva luxúria carnal com a excessiva ausência de refinamento artístico. O homem moderno considerava demasiadamente ricas as vestes de [São Tomás] Becket e demasiadamente pobres as suas refeições. Mas, neste caso, o homem moderno seria, realmente, uma exceção na História: nenhum homem tinha, anteriormente, degustado tão lautos jantares, vestindo roupas tão feias. O homem moderno considerava a Igreja demasiadamente simples, exatamente porque a vida moderna é demasiadamente complexa; ele julga a Igreja demasiadamente faustosa, porque a vida moderna é tão destituída de brilho. [...] Analisei todos os casos e verifiquei que a chave continuava a ajustar-se perfeitamente. O fato de Swinburne irritar-se com a infelicidade e, ainda mais, com a felicidade dos cristãos era facilmente explicável. [...] As restrições dos cristãos entristeciam-no só porque ele era mais hedonista do que deve ser um homem saudável. A fé dos cristãos enfurecia-o, porque ele era mais pessimista do que um homem saudável deve ser. Da mesma forma, os malthusianos atacavam, instintivamente, o Cristianismo, não porque haja qualquer coisa especialmente antimalthusiana no Cristianismo, mas porque há alguma coisa um pouco anti-humana no Malthusianismo.”
Gilbert Keith Chesterton was one of the most influential English writers of the 20th century. His prolific and diverse output included journalism, philosophy, poetry, biography, Christian apologetics, fantasy and detective fiction.
Chesterton has been called the "prince of paradox". Time magazine, in a review of a biography of Chesterton, observed of his writing style: "Whenever possible Chesterton made his points with popular sayings, proverbs, allegories—first carefully turning them inside out.